PRIMEIRO DE ABRIL

Sempre gostou desta data: 1º de Abril, Dia da Mentira. Desde moleque esperava por esse dia já pensando no que iria aprontar. Que divertido era, teve que correr algumas vezes para não apanhar. Falava para a mãe que tinha ouvido o pai conversar romanticamente com uma mulher que ela morria de ciúmes; dizia ao pai que o cantor preferido dele tinha morrido de acidente; falava para a avó que tinham inventado uma dentadura que mastigava sozinha; para o tio que o patrão tinha ligado e pedido para avisar que ele não precisaria trabalhar hoje…e assim por diante para depois de um tempo dizer, com um largo sorriso: “é mentira, primeiro de abril”. O dia que falou para o pai que a irmã estava grávida, quase houve uma tragédia na familia.

Quando ficou adolescente e paquerava alguma menina muito linda para “seu bico” esperava essa data para se declarar; se levava um fora dizia que era primeiro de abril; se dava certo, ficava quieto.

Já adulto, contava para seus amigos da sua plantação de carrapicho que ia de vento em popa, já tendo até uma fábrica de travesseiros interessada nesse novo substituto da espuma; que tinham ganhando na loteria, pois faziam bolão semanal…

E foi crescendo e nunca perdeu essa mania de fazer pegadinhas nesta data, mas, foi percebendo que as pessoas, com o correr do tempo, estavam cada vez mais estressadas e sem paciência. Hoje com 50 anos, fica só na vontade pois tem receio de contar uma estória e a pessoa acabar morrendo de susto ou, dependendo do ser humano, levar uma surra ou um tiro.

Ficou mais triste mas prefere não arriscar. “Povo chato, mundo chato”, pensa ele. Então conta mentiras para si mesmo e aproveita o dia para concluir que “era feliz e sabia”.

“EU ATÉ QUERIA CONTAR UMA MENTIRA NESTE PRIMEIRO DE ABRIL, MAS EU TÔ EM DUBAI. QUANDO CHEGAR NO BRASIL, EU CONTO”.

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